Novidade no mercado editorial: livros com trilha sonora

Estão cada vez mais comuns títulos em que a música é coprotagonista e funciona como marca registrada de um personagem


Raquel Lima – Diario de Pernambuco
Publicação: 09/04/2013 09:25 Atualização: 09/04/2013 09:46


 (Blenda Souto Maior/DP/D.A Press)

A sinergia do leitor com o livro à mão não se resume à sensação do papel, ao virar da página, ao cheiro. Sob influência do tecnoconsumismo, a tinta carrega, de forma cada vez mais natural, música. Não como em biografia de cantores ou compositores, reais ou da ficção, nem como temas à la James Bond, mas como cartões de visitas de personagens comuns, que trazem sempre seu iPod no bolso, na palma suada da mão. São canções coprotagonistas de cenas cotidianas em leituras rápidas e contemporâneas – geralmente enfileiradas nas seções de jovens adultos, fantasia, aventura ou chick-lit – como são chamados os títulos em movimento de translação ao redor das mulheres.

O xis da questão é que o mercado editorial, que nesses dias assimila tanto quanto possível a rapidez do entorno, agora carrega em apêndices ou notas de rodapé indicações de faixas que inspiraram tais e quais trechos do livro ou mesmo sugestões para ouvir durante a leitura. Quando o apelo comercial é gigante, como no caso da trilogia Cinquenta tons, de E.L. James, best-seller do ano passado, algumas dessas playlists são reunidas em discos – vendidos independentemente e até encartados.

Apesar de a exploração comercial dessa relação do livro com as canções ser um filão novo, há de se lembrar que o papel de hits musicais em livros não-musicais foi importante antes. Um exemplo é Alta fidelidade, de Nick Hornby. O autor foi celebrado como inovador nos anos 1990 ao fazer seu protagonista Rob Fleming listar músicas preferidas, traçando assim um perfil da geração que consumia rock’n’roll com TV. A obra ganhou os cinemas no ano 2000, com direção de Stephen Frears e John Cusack como protagonista.

A Évora é uma das editoras que já exploram, em português, o dueto literatura-música. E está alardeando três novos livros com a chancela do selo Generale: Apocalipse zumbi, Sábado à noite A página perdida de Camões. O CEO da editora, Henrique Farinha, disse que essa “forma de fazer negócios muda a relação com o público e gera uma série de oportunidades, como aumentar a participação das pessoas no cotidiano da editora”. Mas talvez seja o ficcionista norte-americano Jonathan Frazen quem melhor avalie essa adaptação frenética do mercado aos tempos atuais de conectividade.

Em sua obra Como ficar sozinho (Companhia das Letras, 2012), que inclui apologia à canção Both sides now, de Judy Collins, ele analisa a relação de amor à tecnologia, e seu comportamento agregado, e conclui no prefácio: “segundo a lógica do tecnoconsumismo, os mercados descobrem e respondem àquilo que os consumidores mais desejam, nossa tecnologia se tornou extremamente eficiente para criar produtos que correspondam à nossa fantasia de um relacionamento erótico ideal com o objeto amado”.

Palavra cantada
Confira alguns livros que inspiram músicas ou vice-versa

As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky
(Editora Rocco)

No texto
Trata-se da história de Charlie, um adolescente rejeitado pela maioria que troca correspondências com um amigo, revelando nelas suas dificuldades na escola, as descobertas dos primeiros encontros, os dramas familiares. Seu momento de transformação é na travessia de uma ponte, ao som de uma música especial. 
Na playlist 
Heroes, David Bowie 
Asleep, The Smiths

Sábado à noite, de Babi Dewet 
(Genreale/Editora Évora)

No texto
Fanfic (ficção criada por fãs) inspirada na banda de pop rock britânica McFly, esse livro foi lançado de forma independente em 2010. As canções que uma adolescente passa a ouvir nos bailes encaixam perfeitamente ao momento que ela está vivendo. Dewet escreveu as cinco músicas da sua trilha sonora. 
Na playlist 
Sábado à noite, DeLorean


O lado bom da vida, de Matthew Quick
(Editora Intrínseca)

No texto 
Ex-professor acaba de sair de uma instituição psiquiátrica. E não se lembra do que o fez ir para lá. O que sabe é que Nikki, sua esposa, pediu “um tempo”. Com a memória cheia de “vazios”, é viciado em exercícios físicos na sua determinação para reorganizar a vida. Até que ouve a canção com a qual casou. 
Na playist
My cherie amour, de Stevie Wonder


Apocalipse zumbi – Os primeiros anos, de Alexandre Callari
(Generale/Editora Évora) 

No texto 
Cheia de intrigas, mistério e horror, essa ficção é a primeira de uma trilogia que combina texto, conteúdo online e música para narrar a história de personagens que lutam contra a dominação dos zumbis. A trilha sonora também foi composta pelo escritor, que é editor da DC Comics Brasil e tradutor. Primeiro livro nacional sobre zumbis. 
Na playlist
Conflito de amor, Dream Zision 

No limite da atração, de Katie McGarry
(Verus Editora)
 
No texto
A história de amor de dois jovens cheios de problemas, que procuram parecer normais. Os dois se revezam como narradores, sempre cita músicas. A autora retoma sua própria voz ao dedicar a última página do livro à uma playlist do seu livro, inclusive, as que ouviu em cenas específicas. 
Na playlist 
Use somebody, Kings of Leon 
Scar tissue, Red Hot Chilli Peppers  
Crash Into Me, The Dave Matthews Band
 

Cores de outono, de Keila Kon 
(Editora Novo Século)

No texto
O primeiro título da trilogia fantástica sobre Melissa, uma jovem adulta que ficou órfã e precisa cuidar de Alice, sua irmã caçula. De volta à casa dos avós encontra um mundo que inclui elfos e magos. Melissa vive acompanhada do iPod. A autora paulistana montou playlist do livro e agradeceu a Skank, Kid Abelha e Agridoce. 
Na playlist
Rain, Creed
Notion, Kings of Leon
Open Your eyes, Snow Patrol 

A página perdida de Camões, de Luciano Milici
(Editora Évora) 

No texto 
Segundo o autor paulista, “não é preciso conhecer Camões para ler este livro. Mas é impossível não se interessar por ele após terminá-lo”. A ideia é responder questionamentos que os historiadores jamais divulgaram em suas pesquisas. Afinal, por que Camões esteve preso? O autor escreveu as sete músicas da “trilha sonora”, que vem encartada.
Na playlist 
Página perdida, Banda Polifônicos
 

Ouça algumas das playlists que acompanham livros
Saiba mais
Outras formas de interação do livro com áudio 

Audiobooks
O audiobook, versão falada de um livro, é popular no Brasil. Tais obras carregam a leitura em voz alta de todo o conteúdo da obra. E é comercializado desde os tempos em que as mídias disponíveis eram unicamente o vinil ou a fita k-7. Quem nunca ouviu a história de Branca de Neve? 

Booktracks
No mercado de e-books, títulos já são vendidos com sonoplastia – uma porta que abre, a chuva que cai. Tudo sincronizado com o ritmo de leitura escolhido. A tecnologia foi patenteada pela empresa nova-iorquina Booktrack e lançada nos Estados Unidos no final de 2011, nas lojas da Apple Store.

Publicado por Ana Paula Sena de Almeida

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