LEITURAS I – Filosofia / Spinoza

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Física da individualidade

Spinoza exclui qualquer assimilação do indivíduo a uma forma de realidade orgânica dotada de uma unidade específica, distinta da relação mecânica entre partes extensas que estão necessariamente em exterioridade umas em relação às outras. Quer dizer, a que ponto a temática spinozista do indivíduo é exclusiva de toda finalidade interna que se julga que ligam as partes do organismo umas às outras em função da totalidade que elas formam. Muito ao contrário, o indivíduo é uma realidade constituída pela união de corpos que concorrem entre eles, segundo as leis mecânicas. O indivíduo, por conseguinte, não pode ser confundido com um sujeito, no sentido de uma substância subjacente e suas variações.

Por coisas singulares entendo as coisas que são finitas e que têm uma existência determinada. Se acontece que vários indivíduos concorrem para a uma mesma ação, de tal modo que todos em conjunto sejam a causa de um mesmo efeito, considere-os, então, todos juntos como constituindo uma mesma coisa singular (Ética, II, def. 7 -Spinoza)

Nestas condições, o raciocínio pode deduzir, a partir das coisas singulares e da unidade somente relativa, funcional, que se estabelece entre algumas delas, a ideia de um conjunto definido pela ação que ele exerce. Uma unidade semelhante é de ordem histórica na medida em que depende de um encontro momentâneo entre esses corpos. Também a unidade que parece ser o caráter do indivíduo não pode persistir senão enquanto as condições exteriores mantêm a relação que forma o indivíduo. Do mesmo modo, as interações entre partes no seio do indivíduo não devem colocar em perigo a coesão do conjunto. Por conseguinte, aplica-se uma relação puramente exterior entre partes distintas que coexistem entre elas sem cessar de ser determinadas por outras relações exteriores.  A ação de uns corpos sobre os outros é explicada pela causalidade mecânica que liga as coisas finitas entre elas. Também esta regulação puramente funcional, totalmente transitiva – cada causa exercendo seu efeito fora dela mesma – aparenta-se com uma “pressão do ambiente” que remete ao jogo de todas as causas materiais umas em relação às outras, de maneira indefinida. A ideia do todo, então, é relativa; ela consiste, por exemplo, em isolar tal partícula do sangue, ou da linfa, do sangue tomado em sua totalidade, ou ainda isolar o próprio sangue do resto do organismo ou ainda do ambiente material e do universo em sua integridade*(Carta 32 a Oldenburg – Os pensadores Vol. XVII, p. 390-392). Somente depois que a parte é assim separada, de maneira abstrata, das interações que ela mantém com o resto, é que ela pode ser imaginada como um todo; é assim, por exemplo, com o sangue, tal como foi entendido como um todo unificado, quando as relações de concorrência ou de contrariedade jogam entre as partes que o compõem.  Em resumo, o próprio sangue como indivíduo não é outra coisa senão a organização de suas partes, em função de leis que se estabelecem entre elas. Seguem-se que a noção de todo se confunde com a figura de um conjunto determinado pela ligação de suas partes; esse todo aparece, por conseguinte, como relativamente distinto do resto. Mas uma tal imagem está de fato marcada pelas leis da finitude. Ao contrário, o pensamento adequado relaciona as coisas finitas e singulares entre elas e forma assim conjuntos compostos, o quais estão em relação com outros conjuntos. Os conjuntos assim descritos integram-se uns aos outros em sistemas superiores, os quais, por sua vez, estão em relação entre eles. Etc. A perspectiva muda se for evocado o universo: neste caso não poderia existir encerramento possível do sistema infinito dos efeitos da substância, pois não existe nada em relação a que o universo formaria um todo fechado. Neste caso, a individualidade do universo é dita de uma realidade complexa, infinita, aberta sobre efeitos infinitos não totalizáveis. Na carta 32 a Oldenburg, o raciocínio de Spinoza leva a esta generalização:

Com efeito, todos os corpos estão circundados por outros e se determinam reciprocamente para existir e operar em relações determinadas, mantendo sempre constante em todos os corpos (isto é, o universo inteiro) a mesma relação de movimento e de repouso.

Para compreender direito os problemas que o status da individualidade apresenta, uma comparação com Descartes, pode ser frutuosa. Com efeito, na sua carta a Mesland, de 9 de fevereiro de 1645, Descartes distingue o corpo em geral e o corpo de um homem. O corpo em geral é uma parte da extensão, cuja identidade numérica é alterada se uma parte da matéria que o compõem é subtraída; em compensação, o corpo do homem está unido a uma alma cuja unidade indivisível se aplica à realidade psicofísica assim formada: o corpo do homem evolui durante a existência, partes suas são retiradas, outras são acrescentadas a ele, por exemplo durante o crescimento, mas sua unidade de conjunto permanece apesar de tais variações. Por isso a individualidade do corpo humano parece ser explicada, em Descartes, por uma causa que excede o domínio próprio da extensão, visto que faz a alma intervir. Ao contrário, o breve opúsculo de física, introduzido por Spinoza após a proposição 13 da parte II da Ética, tem a função de descrever uma gênese estritamente física da individualidade a partir da composição dos corpos. Spinoza restabelece neste sentido uma continuidade entre o conjunto dos corpos ditos inanimados, o mundo animal e o corpo do homem: os limiares entre esses diferentes domínios depende de uma complexidade de ordem puramente física.

O indivíduo físico, tal como é formado por uma união de corpos, é composto de uma infinidade de partes. A essência do indivíduo, por conseguinte, não pode consistir numa substância simples que reduziria uma tal diversidade à unidade. Devemos até considerar que a essência ou potência de existir do indivíduo consiste no ato de afirmação por ela mesma desse indivíduo. Ainda é preciso que esse indivíduo tenha surgido no tecido das coisas naturais, o que supõe que a relação funcional entre partes materiais, tal como corresponde à essência desse mesmo indivíduo, seja produzida causalmente na natureza. (…)

RIZK, Hadi. Compreender Spinoza; traduação de Jaime A. Clasen. – Petrópolis, RJ, Vozes, 2006. (Capítulo 3: O INDIVÍDUO)

 

 

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