LEITURAS II – Filosofia / Spinoza

are-you-a-starseed

(…)

Isto quer dizer que o indivíduo deve ser compreendido como uma realidade composta, que é explicado às vezes segundo as relações mecânicas da matéria e como a afirmação de uma potência de ser. E é por esta razão que esse mesmo indivíduo, desde que é produzido por leis mecânicas sob a relação de composição que caracteriza, tende a perseverar na existência em virtude da força causal de sua própria essência. Uma tal força de expressão, nesse ser singular, da causalidade do infinito, imanente a todas as coisas.

Fica claro, pois que, se o indivíduo possui uma essência própria, a existência em ato desse mesmo indivíduo tem por condição uma relação determinada entre os corpos. Esta relação se constitui em função das leis da matéria. Não se trata, pois, de evocar, à maneira de Leibniz, uma tendência da essência, considerada como um possível, a passar para existência; no entanto, já existe uma certa união de corpos, em razão de causas transitivas que afetam os modos da extensão, a essência do indivíduo em questão se exprime na existência como uma essência atuante, pela qual o indivíduo tende a perseverar no ser e, como veremos mais adiante, a aumentar sua potência de agir. Nem por isso se deve imaginar uma espécie de dualidade entre a essência do modo, que é definida fora do atributo como relação mecânica a outros modos, aqui, o corpo, visto que consideramos a existência física do indivíduo. Não esqueçamos que a essência, tal como ela existe no atributo coisa. Certamente, a essência do modo, tal que existe no atributo no sentido de um grau de potência singular, deve ser distinguida da existência modal do ser singular e finito do qual é essência. É preciso também acentuar que a essência do corpo, assim como o corpo existe atualmente, depende de Deus; ela não se produz por ela mesma, mas possui em Deus a sua causa. A essência mantém no atributo uma relação qualitativa de comunidade com todas as outras essências não deve ser concebida de maneira exterior como se se tratasse de partes distintas do espaço; as essências se diferenciam qualitativamente do mesmo modo que, por exemplo para Bergson, não é possível separar um som ou um sentimento da continuidade da melodia ou das variações de intensidade da vida afetiva.

Podemos evocar neste ponto a maneira como Gilles Deleuze diz que toma emprestado de Duns Scoto uma distinção elaborada na Idade Média, para tentar estudar uma forma de individuação da essência modal, individuação de ordem intensiva, que não exige pensar as essências das coisas singulares da mesma maneira que as coisas existentes, quer dizer, como partes exteriores umas das outras.

Não podemos distinguir as coisas existentes senão na medida em que suas essências são supostas distintas; da mesma maneira, toda distinção prévia. Por isso é provável que uma essência de modo correspondente não existe. Mas como? Voltemos a Duns Scoto: a brancura, diz ele, tem intensidade variáveis: elas não são acrescentadas à brancura como coisa a outra coisa, como uma figura se une a um muro sobre o qual é traçada; os graus de intensidade são determinações intrínsecas, modos intrínsecos da brancura, que permanece univocamente a mesma sob qualquer modalidade que seja considerada. (Deleuze. Spinoza et le problème de l´expression. Paris: De Minuit, 1973, p. 179)

Da mesma maneira, a existência atual do indivíduo à medida que esse indivíduo é formado por outra união de corpos, não deve ser concebida como outra coisa, ou uma realidade separada, separada da essência tal como esta existe no atributo. Com efeito, a distinção entre atributo e modos é uma distinção modal, e devemos lembrar neste ponto que a função dos modos infinitos imediatos e mediatos, tal como estudamos no primeiro capítulo, a respeito da produção das coisas singulares, é suprimir a ficção de um desdobramento entre, por um lado, a determinação dita interna de modo por Deus – sendo Deus como a causa interna da essência do modo no seio do atributo – e, por outro lado, sua determinação dita externa pelo sistema infinito de reenvio de causas finitas. Na realidade, Deus ou o infinito, é sempre causa próxima do finito; é a própria produtividade do infinito que se compreende no atributo, onde as essências de modo constituem intensidades singulares, e na extensão modal, onde se manifestam corpos distintos uns dos outros, tendo a existência de cada um deles por condição, em parte, a ação dos outros corpos. O finito é, pois infinito, tanto na ordem da essência como na da existência. Por conseguinte, a essência não é composta da mesma maneira que as relações dos corpos entre eles. Ela exprime uma potência determinada as indecomponível, uma afirmação da substância no indivíduo e, inversamente, uma força de ser do indivíduo. Também se deve renunciar a ver na essência singular uma finalidade interna qualquer; o indivíduo tem uma essência singular e existe sob a forma de uma certa relação entre uma infinidade de partes. Do infinito ao indivíduo, o ser da substância se exprime na potência singular como potência do múltiplo.

Os corpos simples são produzidos pelo modo infinito imediato, quer dizer, pela relação de movimento e de repouso que resulta da natureza absoluta da extensão. Os corpos simples se distinguem entre eles pelo movimento e pelo repouso, pela velocidade e pela lentidão. Não formam um indivíduo distinto senão sob a única condição que um, por exemplo, se desloca, enquanto o outro permanece imóvel, ou se movem a velocidades diferentes. A extensão produz assim suas partes como acontecimentos relativos, definidos unicamente por relações exteriores. Nessas condições, o corpo simples não pode senão manter seu estado, quer dizer, conservar a sua velocidade; o seu contato limita-se ao princípio da inércia. Além disso, é preciso sublinhar que mesmo esta conservação simples implica a resistência do corpo simples ao outros corpos, a fim de manter a trajetória em linha reta. Convém, portanto, ter presente no espírito o fato de que estes corpos simples não são corpos indivisíveis e elementares; Spinoza diz somente que eles são muito simples, o que significa que podem ser divididos ainda. Estes corpos simples são de fato uma abstração teórica, pois são pensados a partir de corpos efetivamente reais. No entanto, a sua simplicidade relativa consiste na simplicidade das formas de relações pelas quais se distinguem entre eles: o movimento e o repouso, a velocidade e a lentidão (Ética, II, prop. 13, axiomas 1 e 2). Tais corpos formam as partes componentes, abstratamente isoladas, dos indivíduos, apresentando propriedades comuns mínimas e, portanto, poucos traços distintos. Inversamente, pode-se adiantar que a única realidade concreta é o indivíduo, corpo composto de uma infinidade de corpos.

. Há assim uma continuidade entre os corpos simples e os corpos compostos, mesmo se os corpos compostos podem distinguir-se uns dos outros segundo uma relação de proporção entre o movimento e o repouso, a velocidade ou a lentidão. Também quanto mais um corpo é composto, mais está em condições de distinguir-se, em numerosos aspectos, dos outros corpos. O próprio corpo humano é um corpo composto. A sua originalidade e sua riqueza respondem aos caracteres gerais dos corpos compostos, mesmo se o corpo humano é, como tal, particularmente complexo, tanto em matéria de composição como de integração, quer dizer, de síntese entre suas partes. Spinoza define assim o indivíduo, enquanto é uma união de corpos:

Quando um certo número de corpos da mesma ou de diversas grandezas sofrem da parte dos outros corpos uma pressão a aplicar-se uns sobre os outros; ou, se eles se movem com o mesmo grau ou com graus diferentes de rapidez, de tal maneira que comunicam os seus movimentos entre si segundo uma relação constante, diremos que esses corpos estão unidos entre si e que, em conjunto, formam todos um corpo, isto é, um indivíduo que se distingue dos outros por essa união de corpos. (Ética, II prop. 13, definição após o axioma 2).

Spinoza deduz duas leis complementares da formação do indivíduo. De um lado, a coação exterior (a “pressão do ambiente”), que impõe aos corpos uma certa relação; de outro lado, a comunicação da mesma proporção de movimento e de repouso, entre as partes que constituem um indivíduo. A unidade do indivíduo pode ser enunciada como a proporção constante de movimento e de repouso entre suas partes, que delimita esse indivíduo em relação aos corpos circundantes. Mas esta invariância se diversifica numa série mais ou menos rica de relações constantes, que podem estabelecer-se entre as partes do indivíduo, de tal maneira que essas partes se comuniquem o movimento sem prejudicar a unidade do conjunto. Sabendo que a unidade do arranjo é função de suas relações com o mundo exterior, é evidente que a complexidade interior do indivíduo, ou sua aptidão para variar a relação entre suas partes, ao mesmo tempo em que mantém a sua unidade de conjunto, define sua aptidão a resistir ao mundo exterior e a manter a estabilidade de seu ser, usando a elasticidade que sua riqueza de composição lhe permite. Assim, fica claro que a identidade individual não pode ser concebida fora das relações que o indivíduo é suscetível de manter com o mundo exterior. O indivíduo, de fato, é inteiramente constituído pelas relações exteriores que se estabelecem entre os modos da matéria; em si mesmo ele é uma composição de corpos que vai ao infinito, sem que em parte alguma uma “interioridade” possa ser descoberta. Vimos, porém, que o indivíduo é igualmente uma essência, atualizada pela relação entre as coisas finitas: essa essência própria age como tendência a perseverar no ser e a resistir àquilo que tende a destruir o indivíduo. (Ética, II, prop. 6 e 7).

Quais são, todavia, as mudanças que o indivíduo pode suportar sem ser destruído? Os lemas 4 a 7 descrevem as variações que não afetam a identidade do indivíduo, enquanto essas modificações ficam compreendidas na proporção de movimento e de repouso, que definem a estrutura invariante de seu ser. A regeneração mostra que, se os corpos exteriores substituem as partes que se separaram do indivíduo, este mantém a sua unidade. Do mesmo modo, o crescimento é suportável se a modificação de grandeza das partes do indivíduo permanece nos limites de uma relação constante de movimento e de repouso entre essas partes; as partes podem deslocar-se umas em relação às outras e modificar a direção de seu movimento, sob a condição de se reproduzir a direção de seu movimento, uma relação constante. Enfim, o próprio indivíduo é suscetível de mobilidade, de ajustamentos diversos das a partes de seu corpo no curso de seus gestos e de seu comportamento; esta flexibilidade, todavia, não altera a relação total que define o compósito.

Estas observações permitem abordar a originalidade do corpo humano, que consiste na riqueza de sua composição e em sua integração forte, o que permite amplas mudanças de forma e uma renovação importante das partes componentes. Os seis postulados que concluem o apêndice dedicado à física da proposição 13, parte II da Ética, enunciam estes caracteres do corpo humano. Ele apresenta um grande grau de complexidade, dado que é formado pelo arranjo em vários níveis de conjuntos muito compostos (1º postulado). Daí resulta uma grande variedade interna de conjuntos muito compostos que constituem o indivíduo: partes fluidas, moles ou duras. Esta diversidade de estrutura permite uma grande aptidão à mudança de figura e de movimento (2º postulado). Uma tal diversidade, bem como a variabilidade dos subconjuntos que compõem o indivíduo, permite que este seja afetado de numerosas maneiras ao mesmo tempo em que conserva a sua forma. O indivíduo pode tanto mais facilmente fazer aquilo que depende de sua própria natureza, quer dizer, ser ativo, que pode suportar um máximo de variações externas ao mesmo tempo que conserva um funcionamento autônomo (3º postulado). Este é motivo por que ele tem necessidade de um fluxo de corpos exteriores que garantam a sua renovação (4º postulado). Enfim, a diversidade dos tecidos que constituem o corpo permitem que ele guarde os traços de afecções, o que garante a sua sensibilidade bem como o seu poder de reagir (5º postulado). Em conclusão, o arranjo sofisticado das partes do corpo humano permite agir segundo um grande número de maneiras sobre os corpos exteriores (6º postulado). O corpo humano é, por conseguinte, um indivíduo marcado pela riqueza do exterior. Ele pode modificar o mundo e ser modificado por ele em razão de sua aptidão a ser afetado, que é ao mesmo tempo ampla e está em condições de evoluir.

RIZK, Hadi. Compreender Spinoza; traduação de Jaime A. Clasen. – Petrópolis, RJ, Vozes, 2006. (Capítulo 3: O INDIVÍDUO)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s