A informação como extensão do corpo

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Quando pensamos em “realidade virtual”, imediatamente relacionamos a tecnologia, as máquinas que conectam corpos humanos a espaços de interatividade eletrônica, jogos, dança, relacionamento, etc. mas sempre penso no oposto como alguma versão de ficção científica ainda não compreendida pela raça humana.

Faço-me a pergunta:

“E se, na verdade, a realidade virtual for a própria vida humana. Momento em que a consciência habita um corpo e pode viver uma história, escolhida por ela mesma com o intuito de autodesenvolvimento?”

Nenhuma novidade há nesta ideia já que alguns “loucos” crentes em vida extraterrestre levam a sério possibilidades como esta, entre outras como passeios através das dimensões.

O corpo humano como máquina biológica, capaz de absorver e decodificar informações, processá-las e alimentar a renovação de uma consciência, desenvolvendo sentimentos, concepções de mundo, sentimentos, religiosidade, singularidade.

Não vou defender teses científicas sobre esta possibilidade, não tenho gabarito para tal. Creio que a própria ciência já vem se encarregando de promover conhecimentos descobertos ainda em 2003, com as pesquisas ligadas ao Projeto Genoma, nas quais informações valiosas sobre a relação do corpo humano (células, cérebro, coração) foram divulgadas e pouco debatidas nas comunidades acadêmicas e opinião pública.

Há um movimento em curso no qual o tratamento da “consciência humana” vem sendo revisitado de todas as formas imagináveis. Cito aqui também os movimentos da tecnologia da informação que busca compreender os mecanismos de funcionamento da consciência humana.

Mas vou simplificar minha contribuição começando com algumas das impressões que tenho sobre o quão importante é este raciocínio para a mudança de paradigma quanto ao modo como Analistas de Sistemas olham a informação de maneira distanciada dos efeitos que promovem no corpo humano e na própria mente humana.

A informação é como um comando para o corpo e para as células, isto é sabido por meio de algumas pesquisas da psicologia e psicanálise, mesmo o Facebook é um dos gigantes que já conhecem a verdade sobre os efeitos que as redes sociais têm sobre o psicológico e o comportamental dos usuários.

Ainda não sabemos até que ponto pode ser criminoso interferir no fluxo de informações de um indivíduo. Ainda não sabemos o quanto pode ser desastroso interromper a corrente de comunicação de uma pessoa. Ou melhor, sabemos, mas não nos sensibilizamos quanto às consequências disso.

Quando pensamos em Sociedade da Informação e do Conhecimento, geralmente pensamentos em benefícios ou malefícios coletivos. Esquecemos de observar o potencial positivo e negativo que esta mudança social pode fazer em um corpo humano, penso em corpo humano aqui como um ente que emana informações, tal como uma das antenas de transmissão de dados em meio a grande sistema de telecomunicações.

O que pode acontecer a uma consciência desconectada? O que pode acontecer a um corpo que absorve os dados de outro corpo conectado à grande rede? Que tipo de doenças psíquicas e físicas pode acometer um corpo exposto a estes tipos de violações. Às veze, penso que tenho esta resposta mas prefiro pedir ajuda, gostaria que especialistas no assunto contribuíssem respondendo a estas questões.

Uma consciência roubada pode ser um grande caos para o resto da rede. A confusão mental numa rede neural pode ser causada por comandos inadequados inseridos de forma criminosa em meio ao ecossistema.

Um corpo sem consciência ou com a consciência sendo sugada por outro é como uma fêmea sendo ameaçada de perder seu filhote. Creio que seja causa de grande caos não apenas individual mas coletivo.

Sendo assim, a pergunta é simples: até que ponto somos capazes de proteger e respeitar este ecossistema que estamos descobrindo e cada vez mais avançando sobre o domínio da consciência humana?

A informação é uma extensão do corpo humano, já faz muito tempo, desde o momento em que aprendemos as tecnologias mais básicas tais como a escrita, para exercitar nossas memórias.

Portanto, qual nossa maturidade para respeitar o ecossistema de consciências que estamos para desvendar?

A resposta: ainda não pensamos nisso, queremos apenas ser os donos e os comandantes de tudo!

PS.: Foi a violência mais intensa que já sofri, insuportável para um mortal qualquer. 😉

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O PERCURSO NA CURADORIA DE CONTEÚDOS: UM PASSEIO ATRAVÉS DOS DADOS DE 2006 ATÉ 2016

Curadoria de informação.
Binóculo Cultural espalhando notícias por aí!

 

 

Ana Paula Sena de Almeida (Profissional de Informação e Curadoria de Conteúdo – APSA Projetos! www.apsacultura.com.branapaulasena@apsaprojetos.com.)

*Leia este artigo na íntegra.

Resumo: Este artigo trata da experiência pessoal e profissional em pesquisa de curadoria de conteúdo, realizada fora das limitações do meio acadêmico e também sem as interferências dela. É um relato científico de uma atividade realizada diariamente em benéfico do trabalho de produtores culturais e gestores de cultura com o intuito de levar informação selecionada e analisada do ponto de vista da curadora.

Palavras-chave: curadoria de conteúdo, gestão cultural, informação estratégica, conhecimento tácito, insights.

Aqui vai um texto sobre a curadoria de conteúdos escrito para não acadêmicos, mas que também pode servir para os impulsos acadêmicos obsessivos por publicar para pontuar rápido e continuar na academia dando aulas e parecendo mais importante do que os que estão de fora.

Comecei a fazer curadoria de conteúdo em 2006, na época, não dispúnhamos de muitos recursos e plataformas para fazer este tipo de atividade. Comecei fazendo isto no meu bom e velho E-mail do Yahoo.com, na ocasião, eu copiava links de fontes, títulos e resumos sobre as notícias e então salvava tudo em pastas por assunto. Em dois anos tinha bastante conteúdo armazenado para fazer algumas observações contundentes sobre o setor cultural no Brasil. Já era possível apontar algumas fontes, grau de relevância de conteúdos, bem como escapar das armadilhas de conteúdos “manipuladores”, “marqueteiros”, “ideológicos” e “politicamente polarizados”.

Em 2006, chamavam esta atividade de monitoria de informação devido aos meus estudos para o trabalho de conclusão de curso, na especialização em Gestão Estratégica da Informação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O estudo foi concluído em 2008  e um artigo foi apresentado no ENECULT deste mesmo ano. O TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) ficou com o título de “Gestão Estratégica da Informação para Projetos Culturais”. Após a especialização, continuei colecionando conteúdos de notícias/artigos/publicações sobre o assunto. Não percebi naquela época, mas este ato de colecionar e atribuir significados havia se tornado um vício delicioso. Tornava meu olhar mais atento às diversas questões não apenas àquelas que envolviam o setor cultural brasileiro, mas a outros tópicos e assuntos que foram aparecendo ao longo das “escavações” na rede eletrônica.

Após quatro anos, já em 2010! Nessa fase, foram usadas ferramentas mais interativas e uma delas era o blog. Através do blog era possível replicar o conteúdo de forma mais precisa e fazer a alegria de empreendedores culturais que procuravam conteúdo garimpado na internet e, de preferência, conteúdo pré-selecionado, apurado, gratuito e que apresentasse pistas para novos negócios ou projetos.

As ações de curadoria tornaram-se mais constantes em 2011, período em que a empresa APSA Projetos já estava formalizada no mercado e em que novos projetos foram surgindo junto com as atividades de curadoria de conteúdo.

Inicialmente foram usados arquivos em PDF com o link para as notícias que poderiam estar hospedas no site da APSA Projetos ou no próprio blog do Binóculo Cultural. Aparentemente foi uma ferramenta paliativa, no entanto, serviu para apurar o que de fato seria necessário para o trabalho de curadoria bem como desenvolver melhor a competência de “escavação” e “garimpo de conteúdos”.

Pesquisando um pouco mais, alguns artigos foram estudados e novas ferramentas foram encontradas. Duas delas, muito importantes e agradáveis ao trabalho do curador de conteúdo, PAPER.LI e SCOOP.IT.  Em 2014, os boletins foram confeccionados a partir do Paper.li e depois somente a partir do Scoop.it. Adiante serão apresentados os motivos da escolha.

O Paper.li foi uma experiência de curadoria agradável, no entanto, apresentou poucas alternativas quanto à segurança dos conteúdos selecionados e a flexibilidade de navegar através das coleções também foi tornando o serviço mais difícil na recuperação de algumas informações já disseminadas.

O trabalho de curadoria através do Scoop.it mostrou-se uma ferramenta bastante eficaz com a possibilidade trabalhar com coleções públicas ou privadas. Tendo em vista negócios de curadoria feitos por profissionais que gostam do assunto e de assuntos. As coleções podem ser modeladas em forma de boletins e podem ser enviadas por meio de aplicativos de marketing digital. A facilidade de modelagem dos formatos e a possibilidade de personalização das coleções, bem como a colaboração com pares, é uma das vantagens do Scoop.it.

Estes trabalhos foram realizados gratuitamente durante todo o período de 2006 até 2012. Em 2013, observando o cenário e o mercado foi possível elaborar um outro processo de trabalho que possibilitasse a entrada de recursos mas sem fechar totalmente o acesso às informações. Exatamente por isso, o retorno foi pífio. Mesmo assim, a proposta de trabalhar com acesso livre contando com a sensibilidade dos usuários do serviço é uma prática de colaboração e creio que faz parte das novas práticas para a economia cognitiva, conforme citação de Lévy (1996):

Com as instituições e as “regras do jogo”, passamos das dimensões coletivas da inteligência individual à inteligência do coletivo enquanto tal. É possível, com efeito, considerar os grupos humanos como “meios” ecológicos ou econômicos nos quais espécies de representações ou ideias aparecem e morrem, se propagam ou regridem, competem entre si ou vivem em simbiose, conservam-se ou transformam-se. (Economias Cognitivas).

A publicidade nunca deu retorno financeiro. Mas aprendi o suficiente para afirmar categoricamente que a curadoria de conteúdos movida por ideias, por pessoas que cortam, colam e comentam, trata-se de um trabalho árduo. Evidentemente realizado com prazer porque um curador geralmente coleciona conteúdos dos quais gosta ou que o interessam por algum motivo.

Os blogs ampliaram o poder de alcance da curadoria de conteúdos e depois de percorrer vários países apenas observando os meus relatórios do Google Analytics (Estatísticas de navegação e acesso aos serviços de curadoria), percebi mesmo, que não é privilégio ser internacional, seja qual for o seu assunto de interesse na curadoria de conteúdos ir constituindo um legado de conhecimentos e capacidade de interpretação de cenários é a maior conquista de um curador (insights).

Portanto, o mais interessante é o que acontece com os seus potenciais cognitivos e com suas potencialidades na organização de fatos e insights. É um jogo de associações gigantesco e que se desenvolve de forma matemática, semântica e orgânica. E este jogo vai se desenrolando de acordo com seu apetite de curador de conteúdos.

O curador de conteúdos não precisa ser um robô, um algoritmo, isso alguns pesquisadores já afirmaram e comprovaram que a curadoria de conteúdo movida pelo “toque humano” é um elemento que equilibra e melhora os resultados dos motores de busca, além de interferir nas questões onde os significados podem ficar um pouco confusos para a máquina.

Resta entender o “negócio” curadoria de conteúdo, até onde ele poderá nos levar? Resta saber se esta proporção que beneficia a rede, o curador, a publicidade eletrônica, a audiência das fontes e os meios de comunicação, se poderá transformar-se em riqueza compartilhada (Sharing Economy), gerar empregos informais e rentáveis, fontes de renda mais adaptadas aos sistemas dinâmicos da Economia da Informação e dar forma à possível Sociedade do Conhecimento.

Resta saber se esta forma de nos relacionarmos com os conteúdos poderá ser no futuro próximo, uma fonte de riquezas que promova sustentabilidade de negócios tão individuais (ou não!) tal como são os blogs/plataformas de conteúdo/redes sociais.

A dinâmica do “eu empurro” um conteúdo para frente através da rede social; e, imediatamente, a rede dissemina para os meus contatos, os meus seguidores e até meus concorrentes (que geralmente são os primeiros a copiar, colar e mudar o selo para garantir sua própria audiência); tudo isto é uma grande e multidimensional cadeia de disseminadores/multiplicadores de conteúdo – autônomos – “escavando” e “empurrando” conteúdos e fazendo isto de maneira orgânica na maior parte das vezes.

Então temos uma atividade econômica com incrível potencial de riquezas (tangíveis e intangíveis). E os marqueteiros já se aproveitam disso bastante!

Portanto, nesta lógica sem paredes da rede sem barreiras; não há ingenuidade! De fato, quanto mais livres os acessos, mais riquezas são geradas devido ao compartilhamento do que está livremente disponível.

Eis o dilema! Alguns poucos não desejam compartilhar nada, apenas pressionam para a rede gerar, capturar ou abduzir recursos para si próprios. Estão repetindo uma fórmula antiga da ganância do velho capitalismo que, aliás, está com seus dias contados!

Leia mais sobre as minhas experiências diárias em curadoria de conteúdo e gestão cultural no blog – https://apsaprojetos.wordpress.com/

Agradecimentos aos que colaboram sem tirar pedaços dos que doam! 😉
REFERÊNCIAS

HARCOURT, Wendey. The future of capitalism: a consideration of alternatives. Cambridge Journal of Economics, 2014, 38, 1307-1328. Oxford Journals.

CORRÊA, Elizabeth Nicolau Saad [Org.]. Curadoria digital e o campo da comunicação. Ebook. – São Paulo:ECA/USP. 2012. 79p.

BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria; tradução Carlos Alberto Medeiros. – Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

GABRIEL, Martha. Marketing na Era Digital. São Paulo:Novatec Editora, 2010.

MORACE, Francesco. O que é o futuro; tradução Simone Bueno Silva. – São Paulo:Estação das Letras e Cores, 2013.

PAIM, Ísis (Org.). A gestão da informação e do conhecimento. Belo Horizonte: Escola de Ciência da Infomação/UFMG. 2003.

LÉVY. Pierre. O que é virtual?; tradução de Paulo Neves. – São Paulo: Ed. 34, 1996. (Coleção TRANS).

Qual o percurso das competências do conhecimento? (Le parcours)

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Após assistir ao vídeo 1 – Professor Pierre Lévy ( Les arbres de connaissances – 2, mar 1995) – #lesemantiquesphere)

Conforme alguns comentários do Professor Pierre Lévy em sua palestra sobre “Árvores do Conhecimento” – Indago sobre as competências do conhecimento.

As competências do conhecimento seriam desenvolvidas somente através de uma percurso profissional? Afirmar que estas competências se desenvolvem apenas em ambientes acadêmicos e profissionais seria limitante pois o conhecimento não é via de regra inserido apenas em contextos comerciais, institucionais ou acadêmicos.

O conhecimento está em organizações religiosas, em partes conhecidas e desconhecidas da história da humanidade.

Portanto, talvez não seja nenhuma ousadia afirmar que o conhecimento está onde ele for colocado (universos variados). As competências do conhecimento poderiam absorvê-lo e coloca-lo em lugares enigmáticos na busca de preservá-lo de consciências não honrosas ou éticas. As instituições públicas governamentais julgam-se as detentoras do conhecimento mas não estamos muito certos disso! Já sofri alguns atentados cibernéticos por pensar diferente. (risos!).

Por isso, muitas vezes o conhecimento vem escondido num simples enigma. Enigmas guardam tantos desdobramentos e tantas dobras nas quais se escondem outros enigmas que só podem ser decifrados pelos iniciados. A mística da consciência – no meu entender, primeiros galhos da árvore do conhecimento é um assunto que ainda quero continuar abordando nos próximos artigos.

Então, não há percurso apenas profissional, apenas religioso, apenas místico ou mítico. Uma competência do conhecimento só é quando os desdobramentos de suas questões “iniciáticas” são compreendidos na sua essência por meio de posturas como a confiança, a ética e a harmonia de seus sentidos e sentimentos que serão determinantes para seus pensamentos, linguagem e comunicação com seus interlocutores e até observadores.

A cultura é um espaço onde fabulosas histórias contêm um pouco de popular e de conhecimento popular. Os que colocam pinceladas de conhecimento em lendas sabem que apenas alguns “espíritos” mais espertos verão os ditos nas entrelinhas.

Porque sendo uma competência do conhecimento, diversas vezes será testada em sua capacidade de comunicar sem o dizer o explícito. Dizer o explícito, muitas vezes, é sinal oposto de inteligência. Às vezes, comunicará nuances de um conhecimento, outras vezes deixará pistas e tantas outras vezes receberá e transmitirá informações de modo não-verbal e não-gestual. (Sim, pensemos em telepatia para daqui uns 15 anos!)

As competências do conhecimento não estão em categorias pré-estabelecidas. Elas são. São dinâmicas e comunicam-se de forma transversal e por isso, possuem mobilidade suficiente para circular em universos variados.

A experiência individual é como a marca de cada competência do conhecimento, criando suas próprias cartografias. Eis a importância da contribuição de cada um na construção e na formação das complexidades da inteligência coletiva.

Enfim, poderia dizer com minha parca experiência que, os mapas podem ser os mesmos, mas os caminhos, os percursos sempre serão diferentes. E, se a diversidade é tão importante, competências do conhecimento vindas de várias categorias trazem mais valor que o inverso.

Não atropele ninguém por aí! Siga seu curso! (Eu adoro metáforas! E sou uma atrevida de comentar este vídeo!)

Obrigada por compartilhar o vídeo, Professor Pierre Lévy!

 

 

A publicidade, a sustentabilidade e o espaço dos atores digitais

 

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Ana Paula Sena de Almeida

Acredite, minha filha de quatro anos é mestre neste assunto.

Desde 2010 venho observando o mercado digital de publicidade e cheguei até a pensar em enfrentar, de novo, a chatice da universidade para discutir o assunto em forma de uma dissertação de mestrado.

A universidade iria levar alguns meses me fazendo perguntas redundantes até que eu tivesse em mãos um pré-projeto para a comissão de avaliação dizer sim ou não à discussão que gostaria de propor.

Não desisti de imediato mas não pretendo perder tempo fazendo propostas de projetos de mestrado que acabam servindo de inspiração e não entram o hall dos aprovados pelos “doutores do saber” na academia.

Enfim, a discussão é muito simples, suas ondas transformadoras é que não são muito digeríveis pelo atual mercado ganancioso e apressado.

As questões que quero observar são as seguintes:

  1. o novo capitalismo (new capitalism) conseguirá construir uma sociedade auto-sustentável baseada em compartilhamento (Sharing Economy)?
  2. Esta nova forma de produzir riquezas acabará por modificar a moeda física para moedas digitais que proporcionem recompensas para aqueles que compartilham?
  3. A publicidade online poderá ser um meio de gerar e compartilhar riquezas para os atores digitais?

Pois bem, vou começar pelo último item no qual minha filha de quatro anos de idade tem sido minha mestra, ensinando-me como é rico o novo universo da publicidade online.

Começo relatando sobre a convivência com o cenário que a Cora (mestra e amante de publicidade online) está acostumada a interagir. O pedido mais ardoroso dela é “mamãe, quero ver propagandas no seu computador!”. Significa: Ligar o computador nos canais do YouTube onde outras crianças e adultos postaram vídeos brincando com bonecos já conhecidos do universo de desenhos infantis. A maioria Disney, é claro!

Então, ao compartilharem os brinquedos através de vídeo-brincadeiras na rede social estas crianças e adultos disponibilizam seus próprios roteiros de histórias, compartilham suas preferências de consumo e ainda potencializam reflexões sobre porquê e como consumir certos objetos de desejo.

É incrível porque também absorve o impacto de consumo por compulsão, ou seja, antes de comprar aquele bonequinho da Peppa, ela está vivenciando a simulação da experiência do consumo deste objeto que seria objeto de desejo e acessível, por meio de simulações de brincadeiras online.

O que é ainda mais fabuloso, quando chegar a consumir tais produtos, ela irá querer produzir seus próprios vídeos, renovando a cadeia de acesso e simulação de consumo.

Então pergunto: É ou não é uma nova rede de consumo baseada no compartilhamento?

Mais interessante é que compartilhar gera mais riquezas do que guardar brinquedos e brincadeiras para si!

Penso que dentro de poucos anos a Cora estará produzindo vídeos, roteiros e brincadeiras para compartilhar com os amiguinhos dela. Penso que ela vai querer recompensas por isto, curtidas, audiência e recursos de publicidade. Pode ir além, como alguns que já são profissionais no assunto, pode ter patrocinadores, fornecedor de produtos que irão compor os conteúdos do canal do seu perfil.

Portanto, percebe-se que não estamos tratado apenas de consumo mas de um comportamento diferente de um diante disso. Talvez uma flexão (como as flexões de verbos!) não tão egoístas e consumistas como as que fazíamos há anos atrás. Eu diria uma flexão em grupo: Eu CONSUMO, COMPARTILHO o que eu consumi, Você CONSOME VIRTUALMENTE e, se quiser, FISICAMENTE; Você COMPARTILHA e GERA audiência. Eu GANHO, Você GANHA, Você PRODUZ, nós CONSUMIMOS, GANHAMOS e COMPARTILHAMOS.

Entendo isto como o início do “new capitalism” apesar de todo ceticismo dos nossos saudosos amigos socialistas.

Entendo como a potencialização do consumo que se recicla para gerar outras fontes de renda e de consumo. Num ciclo que só termina onde terminar a criatividade dos atores digitais.

Talvez num futuro próximo possamos não mais precisar de moedas físicas de trocas. Talvez apenas precisemos de trocas digitais que se consolidem em benefícios para os que estiverem conectados à rede social e em outras dimensões desta rede (nunca sabemos até onde ela vai!).

“By paying attention to the politics of place, we can locate alternatives to dominant neoliberal capitalism already present. In this sense, a seach for future capitalism is closely interrelated to present as well as potential future experiences ‘in place’. For example, Buen Vivir a concept that has now travelled widely around the world as an alternative ‘horizon’ in place which is inspiring new forms of economics in communities around the world.” (HARCOURT, Wendey. The future of capitalism: a consideration of alternatives. Cambridge Journal of Economics, 2014, 38, 1307-1328. Oxford Journals. p.1309)

Então, pensar e produzir em rede é um trabalho e também uma forma de gerar riquezas, ainda que elas estejam indefinidas na forma de distribuição de recompensas! Penso que a piada mais fresca do momento é que o “pensar” diz muito mais sobre os caminhos que o mercado irá percorrer do que os altos e baixos da bolsa de valores.

Vamos às críticas! Não são poucas. Ok, se pensar vai interferir  tanto no consumo, não seria prejudicial para nós tanto controle?

“Na sociedade de consumidores, ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria.” (BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo. p. 20)

Ao mesmo tempo que somos descobertos, decifrados e vigiados, apresentamos à rede social nossas formas de consumir e ainda tiramos proveito disso buscando gerar riquezas (recompensas) para nós mesmos, ainda que seja uma expectativa não uma regra até o momento.

“Escrevendo de dentro da incipiente sociedade de produtores, Karl Marx censurou os economistas da época pela falácia do ‘fetichismo da mercadoria’: o  hábito de, por ação ou omissão, ignorar ou esconder a interação humana por trás do movimento de mercadorias. Como se estas, por conta própria, travassem relações entre si a despeito da mediação humana.” (BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo. p.22)

Outro desafio apontado pelo autor é a inquietante pergunta que pode ser, também, uma suposição aterrorizante para alguns: se tudo se tornar consumo, o que será trabalho?

Outros desafios seriam encontrados na reflexão sobre as divisões sociais colocadas em categorias de trabalhadores da Economia Cognitiva e trabalhadores da Economia Arcaica? Teríamos mais divisões?

“A subjetividade numa sociedade de consumidores, assim como a ‘mercadoria’ numa sociedade de produtores, é  (para usar o oportuno conceito de Bruno Latur) um fetiche – Um produto profundamente humano elevado à categoria de autoridade sobre-humana mediante o esquecimento ou a condenação à irrelevância de suas origens demasiado humanas, juntamente com o conjunto de ações humanas ao seu aparecimento é que foram a condição sine qua non para que isso ocorresse.” (BAUMA, Zygmunt. – Vida para consumo. p. 23)

Por outro lado, como não expressar nossas subjetividades estando conectados, constantemente na mira dos interessados em Marketing e em Vendas?

“Não nos relacionamos da mesma forma que há 100 anos ou na pré-história pode ser que as redes sociais on-line afetem e modifiquem o cérebro humano como outras tecnologias fizeram no passado, principalmente o fogo. A questão é que a mudança do comportamento humano em geral ao longo do tempo se reflete em todas as dimensões da vida.” (GABRIEL, Martha. Marketing na Era Digital. p. 299)

Reflete-se no consumo e nas relações que expressamos através dele, promovendo o consumo por meio de nossas subjetividades. Torna-se um direito individual expressar meu modo de consumir e, por outro lado, torna-se uma responsabilidade compreender as formas mais adequadas de compartilhar e receber recompensas por este trabalho subjetivo e informal.

“A falange se dedicará ao trabalho útil, das ciências, das artes e da culinária. Tornará a indústria atraente e terminará com a distinção negativa entre produtores e consumidores.” (CHARLES FOURIER. 1808 in MORACE, Francesco. O que é o futuro? p. 53)

Dentro de pouco tempo, compreenderemos com mais serenidade que cada pessoa (agente digital) será um canal emanando conhecimento tácito [1].

O papel de cada agente digital não poderá ser arbitrariamente obstruído, do contrário, estaríamos ferindo a ecologia da rede. A coexistência de variedades ou de diversidades é que poderá nos proporcionar conhecimento renovado, com agilidade com que os fatos se desdobram. A busca da harmoniosa e perene paz entre os atores da rede. (“A paz perpétua”, Kant.)

“ECONOMIA COGNITIVA; É possível, com efeito, considerar os grupos humanos como ‘meios’ ecológicos ou econômicos nos quais espécies de representações ou de ideias aparecem e morrem, se propagam ou regridem, competem entre si ou vivem em simbiose, conservam-se ou transformam-se.” (LEVY, Pierre. O que é Virtual. p. 99)

Este espaço de múltiplas trajetórias que se apresentam simultaneamente é o espaço da coletividade e, por incrível que pareça, é o espaço das individualidades porque propõe ao indivíduo “ser” o que se quer, quando e como sua criatividade permitir. É o espaço da publicidade em todos os sentidos porque quer conquistar olhares, aproximar corações, ocupar as mentes e inflar audiências. Todos os seres e consciências são chamados a compartilhar trazendo suas próprias contribuições; é saudável que estas contribuições sejam autênticas e pessoais para então contribuírem com o novelo da coletividade.

Referências:

HARCOURT, Wendey. The future of capitalism: a consideration of alternatives. Cambridge Journal of Economics, 2014, 38, 1307-1328. Oxford Journals.

BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria; tradução Carlos Alberto Medeiros. – Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

GABRIEL, Martha. Marketing na Era Digital. São Paulo:Novatec Editora, 2010.

MORACE, Francesco. O que é o futuro; tradução Simone Bueno Silva. – São Paulo:Estação das Letras e Cores, 2013.

PAIM, Ísis (Org.). A gestão da informação e do conhecimento. Belo Horizonte: Escola de Ciência da Infomação/UFMG. 2003.

LÉVY. Pierre. O que é virtual?; tradução de Paulo Neves. – São Paulo: Ed. 34, 1996. (Coleção TRANS).

____________

[1]  “conversão do conhecimento” – 1) conhecimento tácito em conhecimento tácito que chamamos de socialização; 2) de conhecimento tácito em conhecimento explícito que chamamos de externalização; 3) de conhecimento explícito em conhecimento explícito, ou combinação; e 4) de conhecimento explícito para conhecimento tácito, ou ‘internalização” (Nonaka, Takeuchi, 1997, p.68)

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